quinta-feira, 24 de maio de 2018

13 Reasons Why: Uma história sobre bullying, depressão, estupro, suicídio, trauma e privilégios

[Contém spoilers de ambas as temporadas]




Na última sexta-feira (18) houve a estreia da segunda temporada de 13 Reasons Why (Os 13 porquês) internacionalmente. Depois do rebuliço que deu a primeira temporada, decidi assistir e discutir todos os temas mostrados na série, parte por parte. Espero que, desse modo, consiga provar que esta é uma série difícil, porém traz assuntos que precisamos falar, porque na maioria das vezes os ignoramos.

Na primeira temporada, somos apresentados a Hannah Baker, uma menina estudante recém-chegada da Liberty High, que enfrenta dificuldades para se enturmar. Ela já havia tido problemas na sua antiga escola, por isso foi transferida. Só que o que não esperava era que nesse novo lugar tudo ocorreria do mesmo jeito, só que pior.


FITA 1, LADO A: “Era só uma festa. Não sabia que era o começo do fim.”




Nesta fita, somos apresentados ao propósito de tudo. Os motivos pelo qual a Hannah desistiu de sua vida. Podemos até querer julgá-la, como vimos muitas vezes na internet pessoas falando sobre como ela preferiu lidar com a situação. Entretanto, se nos colocarmos na pele de uma pessoa que sofreu tudo o que ela sofreu, talvez a gente tivesse feito o mesmo.

Justin, um garoto bonitinho pelo qual Hannah teve uma queda, decide chamá-la para sair. Mas como todos sabemos como garotos no Ensino Médio são idiotas (no geral, garotos são idiotas independentes de onde estejam), imaginamos todas suas motivações. Ele chama Hannah para sair (Ela não havia ficado com ninguém antes). Uma coisa leva a outra, até que o previsível acontece.

Na escola, todos nós conhecemos aquele grupo de pessoas que, por mais que sejam unidos por algo em comum, tem sempre aquele que governa. No caso de Justin, foi Bryce, capitão do time da escola. Ele, ao saber que Justin esteve com Hannah após ter lhe mostrado uma foto do encontro, decide expor na internet. Esse tipo de exposição é algo que estamos em contato diariamente, seja como fofocas de celebridades ou até mesmo coisas mais próximas, como a foto de uma amiga nossa no rolê que não nos chamaram.

Além disso, boatos sobre um acontecimento naquela noite passam a circular pelo colégio. Boatos esses que foram corroendo Hannah aos poucos. Já experimentou voltar em um lugar pelo qual passou vergonha? (Se sim, esse lugar te deixou confortável de novo em algum momento, tendo sempre as mesmas pessoas que te fizeram mal? Você conseguiu perdoá-las?) Agora, já voltou em um lugar pelo qual é foi destratado em mais de um sentido? Não?! Pois é, Hannah precisou fazer isso todos os dias. 

Obviamente isso a afetou pelo jeito como foi ignorada pelas pessoas. Por que deveríamos achar que uma foto vazada na internet afetaria uma das pessoas envolvidas, caso ela não quisesse a foto divulgada, não é mesmo? (Sarcasmo, ok?)






FITA 1, LADO B: “Foi a amizade do chocolate quente. Boa para os meses frios, mas talvez não fosse perfeita para as outras estações.”





Na segunda fita, o principal motivo foi a quebra de uma amizade que a princípio parecia inquebrável. Hannah fez amizade com Jéssica e Alex em uma cafeteria local. Acontecimentos passam, e eles começam a fazer besteiras, como qualquer outro adolescente. Os três se beijam em uma noite de descobertas. Tempos depois, Alex e Jéssica anunciam o namoro.

Pode parecer superficial o anúncio de um namoro dentro de um grupo de amigos, mas para quem não tem muitos, é muita coisa. Agora quando seus próprios amigos começam a se distanciar de você, mesmo que já estivesse esperando que isso acontecesse, nunca é fácil. Eles se separam porque um deles se sente culpado por estar se afastando de você, e o outro começa a te culpar pelo final desse relacionamento.

Conseguem entender o problema? Você só queria seus amigos, agora não os tem e eles não tem uns aos outros e te culpam por isso. Essa pessoa que te culpa leva isso até o fim, mesmo explicando que não queria que isso acontecesse, que era mentira. Novamente, parece superficial, mas quando não se tem muitos amigos, perder aqueles que tem é difícil de encarar. Se sente como se ninguém mais fosse estar lá por você. É horrível!






FITA 2, LADO A: “Coisas simples importam.”





Que a adolescência é a fase que mais fazemos besteiras não é novidade para ninguém, mas para a Hannah essas brincadeiras custaram caro.

Alex, que havia terminado com Jéssica (sim, essa mesma da fita 1, lado B), criou uma lista, dessas bem machistas, onde homens julgam as mulheres da escola como: “a mais bonita”, “a que tem mais peito” e “a que tem a melhor bunda”. Ele as julgou e classificou-as em sua “lista de melhor/pior”. Hannah acabou entrando na lista como “a que tem a melhor bunda”.

Como poderíamos esperar, isso teve consequências severas, levando em consideração a reputação que se iniciou após Justin ter deixado Bryce espalhar fotos e boatos. Imagina como uma pessoa que já tinha enfrentado isso uma vez passaria de novo?






FITA 2, LADO B: “Facebook, Twitter, Instagram, eles nos fizeram uma sociedade de seguidores. E a gente adora. Claro que seguir alguém na vida real é algo totalmente diferente.”





Muita das vezes postamos fotos nas redes sociais sem a autorização da pessoa (Só porque as tiramos nos sentimos no direito de publicá-las). Não conheço uma pessoa hoje em dia que não tenha em suas redes sociais imagens de seus amigos, pets, momentos. Mas, e se fossem de outra pessoa e ela não aprovasse o que estivesse fazendo?

Seguimos muitas celebridades, rimos quando um papparazi tira fotos de famosos de uma maneira embaraçosa, invadimos a privacidade deles por vários momentos, achando simplesmente que por serem figuras públicas podemos fazer isso. Agora imagina quando expomos a imagem de algum amigo de uma maneira constrangedora? Será que deveríamos ter feito isso? Será que ele está gostando ou não, preferiu ficar quieto e deixar para lá? No caso de Hannah, isso foi um dos motivos dela ter tirado sua vida.






FITA 3, LADO A: “A gente tava junto nessa, não tava? Mas amigos tomam contam um dos outros.”





Que LGBTfobia é recorrente não é novidade para ninguém. E por esse e outros motivos, Courtney Crimsem decidiu esconder do mundo que é lésbica, mesmo sendo filha de pais gays. No pensamento de Courtney, as pessoas já acham que gays não podem adotar, se descobrissem que era lésbica, iam culpar os pais e dizer que era influência. Não podemos discordar que isso é bastante verdade, levanto em conta a quantidade de ignorantes hoje em dia, mas Courtney fez as coisas da maneira errada.

Após ter sido divulgada, junto com Hannah através de fotos tiradas por Tyler (da fita 2, lado B), Courtney decidiu se defender de alguma maneira para que não sejam explanados na escola os verdadeiros fatos. Ela, então, começou a espalhar boatos sobre Hannah para evitar ser descoberta como uma das envolvidas no beijo.

Novamente, Hannah teve outra desilusão e decepção com alguém que gostava. Seja com sentimentos de amigo ou paixão. Mais uma vez a decepcionaram.






FITA 3, LADO B: “E todo tempo achando que todos sabiam, todos em todos os lugares, sabiam que eu tinha levado um fora no Dia dos Namorados.”





Todos nós já levamos fora de alguém na vida. Isso não é novidade para ninguém. Mas, e se descobrisse que, depois de tudo o que já passou, você era apenas uma aposta?

Foi exatamente isso que aconteceu com Hannah. Ela saiu para um encontro com um menino, Marcus, que achou que havia a chamado para um encontro no Dia dos Namorados porque gostava dela. Ao chegar lá, ele começou a se jogar para cima dela e ela percebeu que todos os amigos dele estão lá. E ela é apenas uma aposta. Nada mais. Apenas mais uma conquista para o livro. Aposto que isso machuca a qualquer um. Machucou a mim.






FITA 4, LADO A: “Há muitas formas de se sentir solitário.”





Sentimentos são complicados. Uma hora estamos felizes, em outra, tristes. Uma nos sentimos acolhidos, e em outras, abandonados. Com isso, Zach se vinga de Hannah de uma maneira que poderia tê-la deixado atrás, mas se tornou algo ruim. Isso tudo porque ela deu um fora nele. Ele transformou uma coisa que poderia ter sido boa em ruim e destruiu completamente o emocional de Hannah.

Pode parecer, como muitas outras, uma coisa boba e simples. Mas acredite, várias coisas bobas e simples pesam muito na vida de alguém quando acumuladas.






FITA 4, LADO B: “Deve ser possível nadar no oceano de alguém sem se afogar. Deve ser possível nadar no oceano de alguém sem se tornar a própria água. Mas continuo com pedras amarradas aos meus pés.”





Hannah, que sonhava em mudar-se para Nova York e ser escritora, decidiu entrar em um clube de poesias para redirecionar todas suas decepções e tragédias em algo produtivo, que pudesse ajudá-la.

Foi então que ela conheceu Ryan e fez amizade com ele. Entretanto, ele se aproveitou de sua dor e usou uma de suas poesias mais tristes e a recitou no clube como se fosse de autoria própria. Isso machucou muito Hannah, porque estava começando a confiar nele, além de ter achado algo com que se identificasse. Ela teve sua privacidade invadida mais uma vez, até em um local que considerava seguro para ela.






FITA 5, LADO A: “Como podem culpar alguém por uma coisa que aconteceu enquanto estavam inconscientes?”





Aqui diria que a coisa começou a ficar séria demais. Hannah foi a uma festa e todos brincavam, se divertiam e bebiam. Todo mundo. Só que nesse momento, ela presenciou um fato e por mais que quisesse fazer algo, não conseguiu.

Ela viu Bryce estuprar Jéssica. Além disso, percebeu que o namorado dela, Justin, não reagiu, mesmo sabendo o que iria acontecer. Ele simplesmente sentou no corredor, ouvindo tudo e chorando.






FITA 5, LADO B: “Às vezes as coisas acontecem com você. Só acontecem. E você não consegue evitar.”





Hannah presencia um acidente de carro. Nele, uma placa de “Pare!” em um cruzamento perigoso da cidade acaba sendo removida. Ao invés de chamarem a polícia, Sheri a convence de que não podiam fazer isso. Essa remoção ocasionou a morte de uma pessoa.

Ela então se sentiu culpada e culpou Sheri por tê-la convencido a não fazer nada em relação à placa, ocasionando a morte de um de seus amigos. A culpa também pode ser algo difícil de lidar quando se está passando por problemas psicológicos.







FITA 6, LADO A: “Seu nome não pertence a esta lista. Mas precisava estar aqui se vou contar a minha história.”





Vemos que há vários casos que levaram a Hannah a tomar a decisão de tirar sua própria vida. Nesta fita percebemos uma coisa que a maioria das pessoas não veem: não fazer nada também é algo muito grave.

Clay sabe de todas as coisas que Hannah passou ou passa, e mesmo assim decidiu deixá-la sozinha como ela havia pedido. Ele só está na fita porque ela gostava muito dele e esperava que ele se importasse com ela a ponto de não a obedecer quando pediu para deixá-la sozinha. Às vezes, por mais que a pessoa deseje ficar sozinha, o melhor é que esteja acompanhada do melhor jeito possível.







FITA 6, LADO B: “Parecia que não importava o que eu fizesse, eu sempre decepcionava as pessoas. Comecei a pensar como a vida de todo mundo ficaria melhor se mim.”




Nesta fita, Hannah conta uma coisa que não esperamos que aconteça com ninguém, mas como todos nós sabemos, acontece e com mais frequência do que achamos. Hannah, em uma pseudo-festa, acaba sendo estuprada por Bryce, do mesmo jeito que presenciou o caso de Jéssica, mas dessa vez em uma banheira quente.

“Sei que alguns de vocês que estão ouvindo podem achar que eu podia ter feito alguma coisa, ou devia ter feito, mas eu perdi o controle. E naquela hora me senti como... como se já estivesse morta.” Essa é uma das coisas que trazem a série para algo bem próximo da realidade, visto a quantidade de mulheres (e homens em alguns casos) que sofrem abuso sexual e ficam traumatizados para a vida toda. Isso precisa mudar.






FITA 7, LADO A: “Uma última tentativa... Estou dando a vida uma última tentativa.”


Depois de passar por tantos baixos e mais baixos, Hannah decidiu contar para alguém que pudesse ajudá-la passar por tudo isso e guiá-la. Com isso, confia no conselheiro da escola, o senhor Porter. Mal ela sabia que tudo no mundo é negligenciado, inclusive a palavra de uma mulher acusando um cara branco e rico.

Senhor Porter ignorou o pedido de ajuda de Hannah, e a acusação feita por ela, por falta de provas. Vivemos em um mundo onde isso é muito recorrente. A palavra de uma pessoa é menos importante do que uma evidência física de que tal coisa aconteceu. Ela não tinha uma filmagem ou uma gravação de áudio, e por isso, não conseguiu ajuda de alguém que estava ali para isso. Foi a gota d’água.






Bullying





É muito óbvio que questões como bullying sejam tratadas de várias formas e programas, contudo, nenhum deles abordam sua consequência como 13 Reasons Why.

Por muitas vezes, os famosos valentões sempre acham que estão fazendo apenas uma brincadeira e que a pessoa tem consciência disso, mas não, ela não é engraçada quando mexe com o emocional de alguém.

Na série, podemos ver muitas consequências que ações pequenas geram. Elas começaram como “uma brincadeira”, ou se não, como uma atitude inocente. Contudo, as coisas afetam as pessoas de maneiras diferentes. Só porque não dói em você, não significa que também não está doendo no outro.

O bullying precisa ser mais abordado hoje em dia, assim como suas consequências para ver se no mínimo conseguimos diminuir sua ocorrência. Ele pode ser um gatilho direto para a depressão e o suicídio.



Depressão





A depressão é uma doença mental caracterizada pela perda de interesse, assim como uma tristeza profunda, falta de ânimo, ausência de prazer e oscilações de humor que pode levar a pensamentos suicidas. Segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 300 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão.

Hoje em dia, ela ainda é tratada como uma espécie de tabu, onde é pouco falada na mídia. Nos poucos casos, a tratam como se fosse algo de outro, quando na verdade sabemos que é mais recorrente do que aparenta.

A série mostra gradativamente como uma pessoa passa de saudável para depressiva. Você percebe ao longo da história que houve um acúmulo de várias coisas pequenas que geraram um efeito bola de neve, fazendo com que Hannah perdesse completamente o interesse por sua vida e por fazer parte de uma sociedade. E isso, embora seja um assunto delicado, precisa ser mais retratado na mídia. É necessário mostrar para as pessoas que elas precisam procurar ajuda caso estejam passando por esse tipo de situação.



Suicídio





Vi várias publicações em sites falando que a série Os 13 porquês é perigosa porque romantiza e estimula o suicídio. Meus amores, vocês querem mesmo falar que 13RW romantiza o suicídio séculos depois de Shakespeare e sua obra que todos amam, conhecida como Romeu e Julieta? O que é Romeu e Julieta se não um suicídio romantizado? “Ah, não podemos ficar juntos. Vamos nos matar.” Sem comentários.

Todos sabemos que no final da temporada temos a chocante cena de Hannah se suicidando, após gravar todas as fitas contando os motivos pelos quais decidiu tirar sua vida. Mesmos depois da explicação do porquê decidiu tomar essa decisão, muitas pessoas a chamaram de dramática pela internet. Queridos, é esse tipo de atitude que leva alguém ao suicídio. Como já disse, só porque não é sua dor, não significa que não seja de outra pessoa. Pequenas coisas importam e isso é mostrado claramente na série.

ACREDITE: ninguém quer tirar sua vida por diversão. O suicídio é apenas um grito de desespero de uma pessoa que não está conseguindo lidar mais com todas as coisas, e na maioria das vezes, ela tem que enfrentá-las sozinha. Esta é a alternativa final de alguém em desespero. Como a Hannah mesmo disse, ela deu várias tentativas para a vida e todas a desapontaram.



Estupro





Um dos assuntos mais polêmicos tratados na série é o estupro de duas personagens e estes são relatados na primeira temporada. Em sua segunda temporada, tomamos ciência que não foram apenas esses casos que ocorreram e que o personagem que comete os atos também o fez com outras garotas, inclusive com uma inconsciente.

Muitas pessoas criticaram 13RW por mostrar tal coisa, falando que a produção mostrava além do que devia e que esse tipo de assunto não deveria ser tratado na tv. Ponho minha cara a tapa a dizer que metade dos que disseram isso assistem Game of Thrones. Em GoT observamos várias coisas como estupro e incesto. Com isso, esperamos que as pessoas critiquem a série negativamente, certo? Errado! As pessoas justificam as ações dos personagens com a frase: “Se passa na era medieval e é apenas fantasia”.

Por mais que se ambiente na era medieval, isso ainda é visto hoje e não pode ser tão normalizado como era na época. Por esse, e muitos outros motivos, este assunto merece destaque sim, mostrando que isso acontece e que as pessoas devem denunciar seus agressores, por mais oprimidas e com medo se sintam. Contudo, algumas outras coisas aconteceram que me deixaram encabulado e falarei delas mais à frente.



Segunda temporada





Uma das coisas que mais gostei foi que, depois de todas as mensagens de ódio em relação à primeira temporada e como era poderia agir como um gatilho em certas situações, antes do início da segunda, assistimos um vídeo gravado pelos atores no qual falam sobre os perigosos do conteúdo do programa e sugerindo que você, caso tenha passado por algum problema, assista-o acompanhado de um adulto responsável. Isso mostra o cuidado que tiveram com relação aos assuntos abordados.





Como falei anteriormente, a segunda temporada estreou na última sexta-feira (18). Como gostei muito da primeira, interrompi meus estudos (tinha uma prova na faculdade na segunda, dia 21) e fui assistir à temporada nova. Consegui terminar todos os novos episódios em apenas um único dia. (Existi nesse dia? Não sei.) Algumas coisas me incomodaram nos novos acontecimentos - alguns justificáveis, outros nem tanto e falarei deles pouco a pouco a seguir.

Primeiro de tudo, somos conscientizados que Olivia Baker, mãe de Hannah, decidiu processar a escola pelo que aconteceu com sua filha, para que os professores, conselheiros e diretores também sejam responsabilizados. Contudo, ao longo do julgamento, percebe que, embora queira alguma forma de justiça pelo que aconteceu com Hannah, ela também tem culpa. Em vários momentos vemos flashbacks que já foi nos mostrados na primeira temporada, porém em um contexto diferente. Na primeira temporada, durante a exposição das fitas, nós seguimos a história pelo ponto de vista da Hannah, mas como ela mesmo diz: “Toda história tem treze lados diferentes.”

Nessa temporada, vemos os lados de todas as pessoas envolvidas, de Justin ao Sr. Porter, incluindo outras, como a família dos envolvidos. Claramente os produtores quiseram aprofundar mais as histórias e mostrar as dificuldades que todos passam em suas próprias vidas. Alguns ganharam mais destaques que outros, mas muita coisa ainda requer explicação.





Como acompanhamos pelos trailers e pôsteres lançados para a divulgação da nova temporada, teríamos nela um novo mistério: as polaroides e quem estaria enviando-as. Achei que isso poderia ter sido muito mais ao longo da história, assim como outras pequenas coisas. Os produtores trabalharam as polaroides de maneira que elas fossem essenciais para o desenvolvimento da história, entretanto, as consequências geradas por elas não foram as esperadas por mim.

As fotos têm ligações diretas com Bryce e suas atitudes em relação as mulheres. Elas provam que ele estupra mulheres e que é recorrente, e alguém decide expor isso ao Clay, que na cabeça da pessoa, é o único capaz de fazer algo. Boa parte da temporada é focada nessa questão do estupro. Ainda assim, eles trabalharam coisas que não achei que foram ações corretas.

Bryce dá seu depoimento no julgamento de Olivia contra a escola e não dá em nada. Com isso, depois de muita luta, Jessica decide denunciá-lo com o apoio de seus amigos, inclusive de Justin, que foi um dos envolvidos na história. Nesse momento quiseram trabalhar coisas que eu acho muito relevante e real como privilégios e impunidade, porém, talvez o tenham feito de maneira errada, ou ao menos perigosa.





Ele é processado e julgado por suas ações, mas Bryce é um homem branco, atleta famoso da escola e filho de pais ricos. Com isso, tem os melhores advogados ao seu dispor, que conseguem fazer com que seja sentenciado a pouquíssimo tempo de cadeia. Enquanto isso, Justin, que também acabou sendo processado junto com Bryce como uma espécie de cúmplice, foi sentenciado a muito mais tempo. É claro que ele já tinha consciência disso quando apoiou Jessica em sua decisão e disse que deporia a favor dela e achei isso algo muito real e importante de ser falado.

Entretanto, isso pode ter passado uma mensagem perigosa. Concordo plenamente que nosso mundo hoje em dia é cheio de injustiças e impunidades, mas do jeito que foi tratado, pode ter acabado passando a mensagem de que a denúncia não dá em nada, fazendo com que a pessoa se sinta ainda menos acolhida pelo sistema. Isso pode ser algo altamente ruim, visto que muitas mulheres podem acabar recebendo esse tipo de mensagem e ficando ainda mais submetidas aos seus agressores.

Meninas, denunciem sim! Por mais que a justiça hoje em dia seja uma porcaria, providências precisam ser tomadas para o cuidado de vocês mesmas. Não deixem que um babaca agressor te subjulgue. Mostrem que têm voz!







Por último, houve um ótimo gancho para uma possível terceira temporada, que também é um assunto recorrente, principalmente nos Estados Unidos: invasões e tiroteios em escolas.

Muitas das vezes julgamos o agressor sem pensar duas vezes, mas nunca pensamos no que o fizeram agir daquela forma. Sei que não há como justificar seus atos, mas podemos tentar entendê-los. Com isso, em Os 13 porquês, temos uma das cenas mais chocantes da temporada que envolve o Tyler e o fotógrafo que divulgou fotos da Hannah com outra menina. Tyler sofre uma violência absurda, que muitas outras pessoas sofrem nas escolas e são ignoradas ou mascaradas.

Ele, se sentindo muito humilhado pelo que passou, decidiu fazer justiça com suas próprias mãos. Na primeira temporada, nos foi mostrado que Tyler tem acesso à armas e isso veio à tona apenas na segunda. Por vários momentos, o vemos atirando com seu amigo e, inclusive, com Clay também. Com isso, vemos Tyler pegando seu revólver e partindo em direção à escola, onde seus agressores e muitos outros estavam reunidos em um baile.

Achei que isso seria um excelente gancho para a terceira temporada e que nela se trataria de assuntos como esse tipo de violência nas escolas. Ela mostraria que a impunidade gera outros tipos de violência. Contudo, personagens se envolvem e acabou que não teve tiroteio.

Isso foi um dos erros dessa temporada. Eles tinham tudo para falar de novos assuntos sérios, podendo conscientizar mais pessoas e tirando a imagem do suicídio da série, mas ficaram receosos e não partiram para esse lado. Espero de coração, que caso haja uma próxima temporada, se corrija todos os erros dessa e que haja finalmente algum tipo de justiça. Levando em consideração o que aconteceu com o Tyler, isso pode chocar muita gente, fazendo com que a produção inclusive sofra as consequências com um cancelamento.




Ainda assim, podemos perceber que este é um programa necessário para tratar de temas como bullying, depressão e traumas sofridos pelas pessoas que passam por algum tipo de violência. Quem nunca sofreu bullying, o praticava. Essa é a verdade. Se você não se encaixa em nenhum dos dois, nunca saiu de casa.

Muita gente pode achar que isso é um assunto recente, mas na verdade isso acontece há muito tempo. As pessoas acordaram para isso agora, e programas como esse podem fazer com que mais indivíduos abram os olhos e comecem a contrariar tais atitudes. O intuito é que ao longo do tempo, as pessoas se tornem mais civilizadas e conscientes e menos babacas.

Agora, aguardo o pronunciamento da Netflix quanto à renovação da série. Queridos da produção, me chamem para ajudar no roteiro, eu nem cobro. Quanto mais assuntos tratarmos na mídia, que é um dos meios de comunicação mais importantes hoje em dia, mais conseguiremos levar informação para um grande grupo de pessoas e menos violência teremos. (Não custa sonhar, não é mesmo?) J-J










Por: Thiago Nascimento

quarta-feira, 23 de maio de 2018

"Eu sei o que você quer no Dia dos namorados": o erro da exclusão da campanha da 'Reserva'



A grife carioca Reserva recentemente se envolveu em uma série de polêmicas ao divulgar sua peça publicitária para o Dia dos Namorados no Instagram. A propaganda publicada no dia 15 foi retirada do ar no dia 17, por conta da repercussão negativa que gerou. A Reserva, então, criou um post intitulado "PAUSA" e, horas depois, excluiu a campanha, com um pedido de retratação e desculpas. 

O post tratava-se de uma alusão ao o que casais apaixonados de namorados anseiam nesse dia e nos outros: se amarem de forma intensa, romântica e duradoura. A grife, portanto, criou uma imagem que tinha a seguinte frase: 

“O que a gente quer MESMO nesse dia dos namorados é….Complete na legenda”.


Além da frase na imagem, havia a seguinte legenda:

“Lá vem as campanhas de dia dos namorados: cheia de rodas gigantes, beijinhos na boca, coraçõezinhos… zero cara da Reserva, né? Mozão! Use camisinha & faça com amor”.






Era uma imagem com som. Quando o usuário clicava, logo era emitido o famoso Gemidão do Whatsapp - que repercutiu bastante na web em 2017. Muitos consideraram a peça de péssimo gosto. A chamaram de "sem noção", "machista", "tosca" e "infantil", além de "vergonhosa"

Na verdade, os internautas não souberam captar a mensagem corretamente, e já a consideraram machista logo de cara (O QUE NA VERDADE NÃO É!).  Além disso, não compreenderam a ideia da grife, muito menos sua identidade, cultura e essência. 


Propaganda machista?!


Me pergunto em que momento a propaganda foi machista, uma vez que o sexo e as relações sexuais fazem parte da vida da maioria das pessoas, sejam homens ou mulheres. Por outro lado, é comum que casais de namorados mantenham intimidade não só nesse dia, como nos demais. 

Quem sustentou esse argumento também chegou a dizer que a grife somente confecciona roupas masculinas, o que acarretaria em seu público-alvo ser para homens e suas mensagens também. MENTIRA!  Embora no início o público fosse masculino (Com a confecção de bermudas estilizadas), a marca ampliou - e muito - o seu público: hoje em dia há roupas para crianças e mulheres. 

Por último, como a propaganda pode ser machista, visto que trata-se de uma pegadinha do Whatsapp amplamente utilizada pelas pessoas de ambos os sexos? Pelo menos até onde sei, não é um áudio machista, mas divertido e constrangedor que serve para as pessoas trollarem as outras (Eu, por exemplo, já cai nessa). Me pergunto para que polemizar aquilo que não precisa ser polemizado?


Ideia


Para a Reserva, reutilizar o Gemidão do Whatsapp significou apresentar o amor, as relações íntimas e o Dia dos Namorados de forma divertida e descontraída, fugindo do padrão das propagandas desse tema:

“Lá vem as campanhas de dia dos namorados: cheia de rodas gigantes, beijinhos na boca, coraçõezinhos… zero cara da Reserva, né? Mozão! Use camisinha & faça com amor”.


A Reserva quis fugir de convenções e padrões, sendo criativa e inovadora. Mesmo falando de sexo, ela não fora de forma alguma apelativa. Um exemplo disso foi o post publicado no dia 16 em que traz um gif da expressão "molhar o biscoito", com a seguinte descrição: “O que a gente quer MESMO nesse dia dos namorados é….Complete na legenda”. Veja:




Houve quem aplaudiu, elogiou a frase e criou embates ao completá-la com "Molhar o BISCOITO", ao invés de "Molhar a BOLACHA". Mas também quem não entendeu o tom descontraído e a ideia inovadora da marca.


Outras campanhas ousadas



A coleção de roupas/produtos 2018 para o Dia dos Namorados da Reserva está ousada, descontraída e conversava muito bem com a peça publicitária do Instagram (Até mesmo o nome das seções está com essa vibe - "Fácil de usar & Tirar", "Faça bem feito" e "Solta a língua". Com a exclusão desta, a coleção meio que perdeu seu sentido e significado. Veja:














Uma camiseta FEMININA com a frase "O mundo precisa de amor. Faça." deu o que falar outrora. A postagem no Instagram tinha a seguinte legenda: "Quer saber? Que se AME! & se for com a @olhaoficial melhor ainda." Relembre:





Fora da temática do Dia dos Namorados, a grife já criou uma camiseta contra o preconceito racial com a frase "Diga-me a cor da sua pele e não te direi porra nenhuma". Bem forte e ousada, né?! Veja:







A Reserva já seguiu padrões em campanhas de Dia dos Namorados!


Você sabia que a Reserva já fez várias campanhas "certinhas" e que "seguiam o padrão" no Dia dos Namorados? A inovação atual da marca não impediu que ela fosse romântica e "normal" no passado. Aliás, sua identidade tem elementos como a versatilidade, contemporaneidade, sempre antenada com temas atuais (Falarei em detalhes no próximo tópico) que permite que ela transite pelos mais diferentes discursos e modelos.

Nos vídeos abaixo vocês verão que a Reserva já abordou a data de forma romântica, com direito à jantar, incentivo para escrever cartas para a pessoa amada e com eternos namorados. Tudo bem cafona, previsível, porém romântico e doce. Assista:














PERGUNTO: Que problema há em a Reserva mostrar um outro lado do Dia dos Namorados esse ano?



Identidade, cultura e essência da marca






A Reserva - que tem um pica-pau na logo - é mais que uma marca de vestuário e roupas, mas sim uma grife de comunicação, com o objetivo de dialogar com seus públicos e clientes sobre temas importantes e atuais. 

Ela já abordou vários assuntos, além de ter criado parcerias com a Um Cartão. Mais que confeccionar uma peça de guarda-roupa, ela tem um intuito de conceber ideias para que as pessoas possam usá-las em seus corpos. Para isso, estuda seu público-alvo, bem como seus gostos e estilos, para criar materiais personalizáveis, com apologia à algo e que tem a essência de quem vai vestir. 

O vídeo publicado pelo Meio & Mensagem captou bem a identidade e essência da Reserva. Assista:







Em resumo, a grife quer comunicar-se através de suas campanhas e produtos. Tendo a comunicação e o diálogo como motes, portanto, se posiciona muito mais como amiga, do que como marca. Enfim, a Reserva tem uma identidade e cultura bem peculiares, como retratado no vídeo a seguir:







A propaganda do Gemidão do Whatsapp não está fora dessa identidade da marca, uma vez que ela se autodeclara como autêntica, inventiva, criativa, inovadora e diferente. Gosto muito do trecho do vídeo que diz:


"Somos nós mesmos, mas nem sempre os mesmos. Somos a marca que não fica parada. Aquela que faz a diferença e se joga fundo na vida e nas ideias."



Desculpa pelo indesculpável



Para mim, o pedido de desculpas da Reserva não deveria ter acontecido e a retirada da propaganda do ar foi totalmente desnecessária. A grife apenas criou um conteúdo, de acordo com sua identidade, e esta atitude não apagará quem ela é. 

A postura que imaginei que ela teria é a de apagar as críticas e comentários negativos e manter a propaganda, pois ela chegou a responder o seguinte aos haters: "Nós apagamos apenas comentários desrespeitosos" e "Nós iremos apagar os comentários com xingamentos e grandes ofensas". Veja:












Contudo, a campanha que foi excluída, juntamente com anos e meses de criatividade e ideias. Após ter excluído as postagens da peça, a Reserva não informou se criará uma nova publicidade para a data. 

Se houve algum ponto positivo em sua retratação foi o fato dela ter explicado o conceito da campanha:


"Para o dia dos namorados, queríamos falar sobre amor à flor da pele e sexo [...]"



O pedido de desculpas da grife pode gerar negatividade; ela pode não ser vista pelo público com bons olhos; além de balançar sua identidade. J-J


Por: Emerson Garcia
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